A corrida pelo Telegram

Por Ygor Salles

Nas últimas 24 horas, o Whatsapp desta Folha recebeu uma enxurrada de correntes como esta abaixo (os erros de português fazem parte da corrente, então não me crucifiquem):

“Antenção! Galera do Whatsapp
Amanhã a partir da 12:00 meia noite, o whatsapp vai ser suspenso temporariamente, ou seja, vai sair fora do ar por causa do Juiz do Piauí que fez um processo e foi sucedido.
Agora baixem o TELEGRAM, pois é a mesma coisa que o whatsapp, igualzinho. Então para vocês não ficarem sem contato com uma certa pessoa, avise-a.
Quero que passe para os grupos para que todos saibam q o whats ficará suspenso, agora devemos usar o TELEGRAM, pois ele não precisa de internet rápida e é mais prático. Obrigado pela atenção! Repassem nos grupos ou contatos!”

Ao mesmo tempo, os termos ‘Telegram’ e ‘Whatsapp’ entraram nos trending topics (assuntos mais comentados) do Twitter no Brasil, e estão lá até agora.

O motivo do alvoroço vem diretamente do Piauí. O juiz Luiz de Moura Correia, da Central de Inquéritos da Comarca de Teresina, ordenou que provedores de internet e de conexão móvel, como as operadoras de telefonia, suspendam o uso do Whatsapp. Segundo ele, o objetivo da medida é forçar a empresa dona do aplicativo a colaborar com investigações da polícia do Estado –o que ela não faz, segundo Correia, por não ter escritório no Brasil, não tendo portanto de cumprir a lei brasileira.

No meio da divulgação da notícia e do imbróglio causado, já que as operadoras estão recorrendo e o aplicativo continua funcionando, um certo pânico se instalou entre os usuários. Afinal de contas, o WhatsApp tem hoje mais de 700 milhões de usuários ativos, e o Brasil está entre os cinco maiores mercados do app.

Não demorou muito para que o alvoroço chegasse às redes sociais.

(Lembrando que este último tuíte é de uma conta fake, sem stress por favor).

E onde o Telegram entra nesta história? Bem, o Telegram é uma espécie de concorrente do WhatsApp. Foi criado em 2013 por dois russos, mas a sede da empresa fica na Alemanha. São bem mais modestos: possuem 50 milhões de usuários ativos, segundo o último dado por eles publicados, em dezembro do ano passado. Mas prometem um serviço gratuito, mais ágil e ‘seguro’.

20150226 Telegram

Logo, as pessoas passaram a sugerir, em meio ao risco de bloqueio do Whatsapp, que todos migrassem para o Telegram, o que explica a corrente mostrada no início deste post e o fato de o app aparecer nos TTs.

Tem também quem critique a mudança –afinal de contas, o WhatsApp ainda funciona.

A corrida pelo Telegram ou qualquer outro app de mensagem eletrônica só evidencia algo que a indústria fonográfica não aprendeu com a internet e, aparentemente, a Justiça brasileira também não: não adianta matar o mensageiro se o remetente da mensagem está vivo, pronto para usar outro mensageiro.

Bloquear o WhatsApp no Brasil pode até funcionar para que a empresa dê o braço a torcer e colabore com a tal investigação cajuína, mas quem quer trocar uma mensagem (ilegal ou não) vai sempre achar outra maneira. Hoje há a opção do Telegram, amanhã será outro, e assim sucessivamente. O Napster manda abraços.