São Paulo x Curitiba: sem extremos

Por Ygor Salles

Como um órgão público deve se portar nas redes sociais?

Essa pergunta ganhou um interessante contorno nesta semana, quando o pessoal que cuida da conta da Prefeitura de São Paulo resolveu, digamos, se rebelar contra a pressão dos seguidores para agir como uma ‘Prefs’.

‘Prefs’, no caso, é o apelido incorporado pela página da Prefeitura de Curitiba, considerado um case de sucesso na interação com os seguidores.

A tática da Prefeitura de Curitiba não é exatamente nova: ela abusa de memes para entreter o seguidor para, no meio de todas aquelas brincadeiras, passar as informações necessárias.

O que tornou o caso de Curitiba um sucesso é, na verdade, o fato de até então nenhum órgão público ter se soltado das amarras do formalismo para se expressar nas redes sociais.

Maaaaas (sempre tem um maaaaas) o problema é que há motivos para torcer o nariz para esse modo de se comunicar com a população. Nesta hora entra a página da Prefeitura de São Paulo.

Viralizou nesta semana uma resposta deles a uma seguidora que questionou o motivo de não serem tão brincalhões como na página da Prefeitura de Curitiba.

A resposta está abaixo:

20151022 SP

De forma resumida, os administradores da página apontam para os excessos de Curitiba, atacando diretamente o principal personagem da página deles, a capivara –bicho pelo qual os curitibanos nutrem simpatia devido ao bando que mora no parque Barigui, o principal da cidade.

“Colocar capivaras voando não ajuda a pessoa a ser mais cidadã”, disparam. Também citam uma crítica comum à página da capital paranaense, a de que muitos dos seguidores não serem de lá, o que diminui sensivelmente sua utilidade pública.

Não demorou muito para a Prefeitura de Curitiba fazer um post-resposta, com um tom um pouco mais professoral que a média, mas ainda assim leve.

“A Prefs teve a humildade de aceitar a linguagem e a estética que dominam as redes sociais. Entendemos que é o poder público que deve se esforçar para se aproximar das pessoas e não o contrário. Foi assim que a prefeitura virou a Prefs; um apelido que vocês nos deram e nós aceitamos – e não dá pra parar de agradecer: obrigada! Há, entre os estudiosos e profissionais da comunicação, os que torçam o nariz para os memes que vocês compartilham por aqui. Há os que acreditem que essa é uma forma de comunicação rasa e tola, sem o potencial de transmitir mensagens complexas. Respeitamos a opinião deles, mas embasamos nosso trabalho numa outra percepção: memes são o entretenimento feito por milhões e consumido por milhões. Memes também são cultura popular e devem ser entendidos como tal, sem preconceito”, dizem os curitibanos.

Em outra oportunidade, a Prefeitura de Curitiba desmentiu a informação sobre o excesso de seguidores de fora da cidade. Há quatro meses (e, acredito eu, esse panorama mudou pouco), cerca de 40% dos seguidores eram de lá. É pouco? Depende. Atualmente eles têm quase 700 mil seguidores –ou seja, 40% disso (uns 280 mil) já seria mais que qualquer página de Prefeitura do país. A de São Paulo, por exemplo, tem 140 mil, metade, e numa cidade oito vezes maior.

É inegável que a tática curitibana é um sucesso. Maaaaas (olha ele aí de novo), há problemas.

Me incomodava bastante posts sem ter relação direta com a atividade principal, a informação ao munícipe. Ainda acontece, mas era mais comum antigamente –hoje eles amarram melhor os memes às informações.

Outro ponto irritante é a forçada de barra em “interagir” com outras Prefeituras. Vamos combinar: uma coisa é se inspirar no case de Curitiba e fazer algo parecido (o que, aliás, sai bem errado na maioria das vezes), outra é tentar pegar carona no sucesso curitibano e a ‘Prefs’ embarcar, gerando uma espiral de novas interações desnecessárias.

Por exemplo, tem coisa mais sem sentido que prefeituras fazendo declarações de amor uma a outra?

20151022 Curitiba

Tendo a dar alguma razão aos paulistanos: não compete a um órgão público ser tão solto. Sim ao texto menos sisudo, não às capivaras voando.

Mas a dose de mau humor do post da Prefeitura de São Paulo mostra o outro extremo que também deve ser combatido. A crítica direta aos curitibanos, uma clara falta de diplomacia que também já foi vista em outras respostas truculentas a seguidores da página, é um exemplo disso.

Brincadeiras também fazem bem se colocadas dentro do contexto da mensagem a ser passada.

Se os fins justificam os meios, Curitiba está em ampla vantagem. Mas a discussão, embora colocada de forma torta, é pertinente.