Após relato de irmã em rede social, autista realiza desejo de ganhar quebra-cabeça

Por Sarah Mota Resende

André Pavan, 30, tem síndrome do X frágil, mutação genética que provoca atraso intelectual, entre outras consequências, e espectro autista. Fã do desenho animado Dora, a Aventureira –em especial do episódio “ABC dos Animais”, que fez a família comprar até o DVD–, ele queria muito um quebra-cabeça com todos os personagens da animação.

“O André não tinha nenhum brinquedo porque a gente achava que ele não gostava. Mas há mais ou menos dois anos, eu estava com meu namorado numa loja infantil quando ele insistiu para que eu comprasse um quebra-cabeça da Dora, a Aventureira para o André. Comprei meio descrente, achando que ele não fosse ligar, mas meu irmão montou o jogo com muita facilidade. A partir daí, nós começamos a comprar vários quebra-cabeças, aumentando um pouco as peças”, diz a irmã Camila Pavan, 26, à Folha.

Foi no último Natal que André pediu de presente uma versão do game com todos os personagens.

Sem sucesso na busca pelo brinquedo, a irmã resolveu perguntar num grupo de compra e venda entre mulheres no site de relacionamento Facebook se alguém fazia a peça personalizada.

Camila não conseguiu apenas a encomenda específica.

Após a publicação do pedido, a jovem recebeu, de modo privado, a mensagem de uma garota que perguntava seu endereço.

“Uma menina que trabalha no canal de TV por assinatura que transmite o desenho entrou em contato comigo dizendo que queria mandar ‘algumas coisinhas'”.

No dia seguinte, um motoboy tocou a campainha da família Pavan com a encomenda: uma sacola de produtos da Dora, a Aventureira.

Era quebra-cabeça, livro, lousa, caderno, lápis de cor, giz de cera, canetinha, estojo, agenda, caneca; tudo da animação.

“Quando viu o presente, André abriu um sorrisão. Ele não compreendeu muito bem o que e como aconteceu, mas sabe que é muito querido”.

A MENSAGEIRA

Quem escrevia era Daniela Andrade, 27, publicitária da Nickelodeon. “Não tenho nenhum autista na família, mas leio bastante sobre a doença e sei como é difícil quando a pessoa quer muito uma coisa e a família não consegue. Me lembrei da história do menino que só bebia líquidos num copo específico”, disse.

Tão feliz quanto o André, está a Daniela, que leu com carinho os comentários deixados por desconhecidos nas redes sociais. “Eu realmente nem imaginava que isso fosse repercutir da maneira que foi, só os comentários já me deixaram muito impressionada. Fiquei super feliz e ao mesmo tempo não pude deixar de pensar que, no mundo que vivemos hoje, um gesto tão simples seja tão raro. Deveríamos tentar ajudar o outro sempre que possível, quando temos o contato ou a possibilidade de fazer a diferença pra alguém”.

SUCESSO E EMOÇÃO ENTRE INTERNAUTAS

Compartilhada em um grupo no Facebook, a história comoveu navegantes online.

“Estou arrepiada”, comentou uma usuária da rede. “Por mais notícias assim”, disse outra pessoa.

Até a publicação deste texto, o relato já tinha 4 mil reações e mais de 200 comentários.

AMOR DE IRMÃO

Camila é quatro anos mais nova que André. Enquanto ela concluiu a faculdade de arquitetura, ele frequenta uma escola especial, faz natação, fisioterapia e aulas de fono, além de cantar e assistir televisão –fora a Dora, André também é fã de Chaves, de O Fantástico Mundo de Bobby, de A Bela e a Fera e adora assistir antigos programas da Mara Maravilha e da Eliana.

Os irmãos André Pavan e Camila Pavan

“Quando criança, eu era bem ciumenta porque não entendia o motivo dele ter mais atenção, mas, mesmo assim, sempre fui protetora. Um dia, nosso pai chegou pra nos buscar na aulinha da igreja e eu estava com dedo apontado na cara de um menino falando que se ele mexesse de novo com meu irmão, eu meteria a mão na cara dele”.

Hoje, Camila mantém perfis dedicados ao irmão nas redes sociais Facebook e Instagram e ajuda os pais na criação e cuidados com André.

“O Andre é feliz assim porque ele sabe que nós o amamos muito e sempre vamos querer o melhor para ele”.