Tratar pessoas com deficiência com naturalidade, e não coitadismo, é fundamental, diz Jairo Marques

Mateus Luiz de Souza

Nada de coitadismo. Nem de idealizar uma história de superação. A pessoa com deficiência apenas quer (e precisa) de condições diferentes para ser igual. Esse é um resumo da conversa com o jornalista Jairo Marques, do Assim Como Você, sexto convidado do Fale, blogueiro, programa de entrevistas com blogueiros da Folha no Instagram Stories.

No programa, Jairo falou do cenário da acessibilidade e inclusão no Brasil e no mundo, de políticas públicas e muito mais. Assista ao programa completo ou leia abaixo os melhores trechos.

Jairo, queria que você contasse um pouco da sua história, pra quem não te conhece ainda.
Quando eu tive poliomielite, era uma doença que ainda atingia boa parte das crianças, sobretudo nos rincões do país, nos anos 70, quando houve um surto. Eu tomei duas doses, e não tomei a terceira, uma dose fundamental. A pólio é uma doença bastante devastadora, poucas pessoas sobrevivem. Eu vim pra São Paulo com minha mãe, com a cara e a coragem, fazer os primeiros processos de ressuscitação em uma criança como aquela. Tive um prejuízo físico importante, não tenho movimento das pernas, um pouco dos braços

E como está sendo esse processo de ensinar a sua filha?
Minha filha ganhou uma dimensão dentro dos meus escritos. Hoje mesmo, eu conversando com uma fonte, depois ele perguntou “vamos ao que interessa, como vai sua filha?” (risos). Desde que ela nasceu foi uma série de redescobertas e reencontros. Uma criança está aprendendo do zero, o que é conviver com diversidade, o que é o diferente. Ela me faz rever um monte de coisa, repensar, revisitar histórias. Com ela eu estou um pouco reaprendendo coisas, repensando, ela é uma fonte de inspiração contínua.

A Lei Brasileira de Inclusão foi regulamentada em março, no tocante a hotéis e pousadas. Está funcionando?
Uma das grandes importâncias dessa lei é reunir uma série de leis e direitos da pessoa com deficiência. Ela vira um instrumento para as pessoas com deficiência poderem praticar seus direitos e que fortalece as pessoas.Convenhamos, essa regulamentação deveria ter acontecido há muito tempo. Ainda hoje enfrentamos problemas muito básicos, como escadaria na frente de um hotel (hotéis de todos os níveis). O país começou a enfrentar esse problema. Quando tem uma lei que determina que isso seja feito, isso aumenta os meios de pressão. E acho que tem melhorado, ainda falta um queijo e uma rapadura, mas acho que é um caminho sem volta, as entidades vão entrar no padrão necessário.

Mas há uma certa reticência ainda por parte de entidades, empresas, etc?
Ainda há uma visão no Brasil e em várias partes do mundo de que a pessoa que tem deficiência não é um consumidor, não é uma pessoa que trabalha, que viaja, que é totalmente equivocada, uma visão pré-histórica. Quando você consegue tirar esse ranço do passado e vestir algo moderno, que são consumidores, que têm além do direito, elas estão vivas, querem usufruir, acho que as empresas vão ampliar a mentalidade para fazer acontecer.

Você já teve que tomar banho na pia porque não entrava no box do banheiro…
São várias histórias. O banho é uma dificuldade para um cadeirante. As pessoas vendem acessibilidade na porta, na entrada, mas precisa ter no banheiro, no restaurante, em todo lugar. Isso aconteceu [não conseguir tomar banho] diversas vezes. Tem uma situação que está posta, eu sou jornalista e preciso de tempo, então tenho que me virar. Não é a situação ideal, mas, na minha profissão, é uma responsabilidade. Na Europa, é bastante comum no banheiro ter uma banheira embaixo do chuveiro. E aí como é que fica para o cadeirante?

Quais países são exemplos de acessibilidade e quais os menos?
Botar o Brasil entre os mais seria pecaminoso, mas acho que o Brasil está conseguindo acelerar o que é inclusivo e acessível. A Espanha é um país que caminhou bastante, sobretudo Barcelona, a Catalunha, é uma região onde esses conceitos estão bem evoluídos. Lá eles falam com muita propriedade “a parte física já conquistamos”, agora estamos trabalhando a cabeça. A parte física acho que vamos conseguimos em uma, duas décadas no Brasil, não vamos estar brigando pela rampa ou pela calçada esburacada, mas a mudança da mentalidade é que demora um pouco mais. Eu queria citar o Chile como exemplo positivo também. O movimento pela inclusão de pessoas com deficiência no Chile é fortíssimo. Cerca de 90% das estações do metrô (e olha que é muito maior que São Paulo) no país são bem acessíveis, as calçadas são boas. Eu pude até fazer esqui adaptado no Chile. É uma questão de elite? É, mas é bacana que consiga as coisas do topo também. Temos que brigar pela rampa, pela calçada, mas estar no topo é uma conquista.

E as cidades brasileiras?
Essas coisas mudam. Por exemplo, Uberlândia já foi uma cidade que se preocupou bastante com inclusão, hoje meus leitores dizem que diminuiu um pouco. Curitiba já foi uma cidade que até serviu de exemplo e hoje também acho que perdeu um pouco desse fôlego. A política pública pela inclusão precisa ser permanente. Você faz uma calçada bacana e não mantém aquela calçada, daqui dois anos vai estar de novo deteriorado. Socorro, interior de SP, tem investido bastante em diversidade e inclusão. Tem um parque com muitas características inclusivas. Brotas também. Eu destacaria esses exemplos, mas ainda falta muito.

As marcas ainda não olham para as pessoas com deficiência?
Está difícil, as marcas ainda perdem muito dinheiro por não saber olhar esse público como consumidor. Mas é uma construção, acho que martelando, brigando, uma hora a gente chega lá.

O número de comerciais inclusivos cresceu muito. Mas como sair do ativismo de comercial?
Esse levantamento [do aumento de comerciais] foi super sério, não levou em conta só aparecer uma pessoa com deficiência, mas que por trás tenha uma mensagem inclusiva bastante. O que ainda há muito na propaganda no Brasil é explorar  imagem da diversidade sem devidamente passar uma informação bacana de inclusão, ou algo contundente. Eu muito admiro o movimento LGBT, que hoje eles não se satisfazem apenas com um comercial bacana, mas qual o segundo passo dessa marca rumo à inclusão? Que tipo de ação efetiva ela faz em sociedade para fazer as vidas dessas pessoas melhor? Fala em inclusão ainda está em crista da onda, então puxar essa imagem para o comercial é muito bacana, mas e daí? Usar um bebê fofinho com Síndrome de Down aperta o coração da gente, mas precisamos que elas sejam incluídas.

Falando do seu livro, “Malacabado“, tem uma questão que é não se tratar como coitado. Ter altos e baixos, podres e coisas boas..
O Marcelo Rubens Paiva, em “Feliz Ano Velho”, é um pouco da escola que eu sigo. Acho que tratar as pessoas com deficiência com naturalidade, e não com coitadismo, ou especiais, é fundamental, para que a gente traga essas pessoas para a cidadania. A partir do momento que você me diferencia, já começa a ver diferente dos outros, e eu não quero estar num grupo específico de pessoas, eu quero estar no meio de todo mundo, para eu poder o que todo mundo pode. A pessoa com deficiência precisa de condições diferentes para ser igual, para praticar essa igualdade, a cidadania. De resto, as pessoas fazem seu mal feito, tem cego bandido, surdo larápio, enfim, a condição física, sensorial não vai moldar o caráter dessa pessoa necessariamente. Essa é a grande batalha. O meu livro leva um pouco essa reflexão, que as pessoas revisitem o seu olhar e postura perante as pessoas com deficiência.

E como lidar com histórias tidas como de superação?
Não tratamos como superação, o que a gente acha é que há caminhos possíveis de serem trilhados. Uma boa história que aborda pessoas com deficiência é mostrar como é que você trilhou esse caminho, que instrumentos que você teve para conseguir driblar as pedras, os buracos, os preconceitos desse caminho. Porque quando falamos em exemplo, em superação, bla bla bla, estamos criando modelos. E eu não quero ter modelos, eu quero ter meu caminho. Essas histórias são importantes, impressionantes, os leitores gostam, elas fazem sentido jornalisticamente, como inspiração, mas a preocupação que devemos ter é o que dessa história está me mostrando um rumo novo? O que está me auxiliando a enxergar algo que eu faço vistas grossas? O menino que vai pra aula de maca, por exemplo, o grande barato, é: meu amigo, eu não tenho outro caminho. Eu estou com essa deficiência, eu tenho a pobreza, eu tenho que ir pra faculdade que é a chance que eu tenho para galgar algo na sociedade, então vamos de maca. Para ele ir de maca, a sociedade precisa se acomodar de alguma maneira. Nesse aspecto a presença humana, a presença de valores como solidariedade, como humanidade, são fundamentais, e ainda bem que é inerente à maioria dos seres humanos, porque esse cara vai precisar de ajuda sim. Mas não no sentido de superar, mas que ele consiga ganhar os instrumentos para ser uma pessoa independente, seja um cidadão. A deficiência é uma característica, só que é uma característica marcante. A gente ampliar esse conceito é fundamental.

Você citou o exemplo da Turma da Mônica, com vídeos com audiodescrição e libras. Quais as iniciativas existem nesse sentido?
A audiodescrição você descreve a cena para pessoas com deficiência visual. Se eu tenho um casal de atores vislumbrando um entardecer, se você tiver um cego no cinema ele vai estar “o que está rolando?”. Descreve esses elementos visuais. Isso é fundamental para compreensão da obra por parte desse público. A libras é a linguagem de sinal que atende parte do público surdo. Esses instrumentos são tão fundamentais como são a rampa, o elevador, a porta mais larga, que têm uma visibilidade maior, mas são menos difundidos, embora haja grupos de frente na batalha. Nos últimos três anos ampliou-se bastante, e ainda tem gente que olha para esses instrumentos e fala: “está me atrapalhando essa legenda”,  mas enquanto supostamente te atrapalha aquilo é o que possibilita outras pessoas a compreender determinado filme. Mas já há lei que garante isso no Brasil, há tecnologias, falta boa vontade e um pouquinho mais de incentivo.

Queria entender sua visão sobre a foto do Neymar na cadeira de rodas. Você o elogiou por postar foto “com o possante”.
Quando eu criei o blog, eu apanhava todos os dias, porque ia contra essa história do coitadismo, com olhos diferenciados. E o blog foi mantido porque um grupo muito forte de leitores se reunia e estava comigo todos os dias. É esse discurso que a gente quer, é assim que a gente quer ser visto. Isso foi naturalizando as coisas, hoje eu posso usar “malacabado” sem ser preso. Quando o Neymar tirou a foto, as pessoas “ah que oportunismo”. Desculpa, o Neymar tem a vida muito bem resolvida, eu tenho dificuldade de entender que ele estava usando aquilo de maneira propagandística, ele viu de maneira muito contemporânea, como necessidade, eu achei uma mensagem muito positiva. Tanto que o Neymar publicou várias outras coisas envolvendo cadeira de rodas de maneira positiva, envolvendo inclusão. “Gente, não tem nada de coitadismo, tem a ver com vamos pra frente”, e quando a Bruna Marquezine vai e tasca um beijo no cara, ela está envolvendo sensualidade da pessoa com deficiência, a gente namora, a gente beija, a gente se pega, e isso tudo é muito moderno. Eu não posso achar que ele está usando a imagem, eu não posso ser contra isso. E quando o Stephen Hawking morreu, ele colocou uma foto com mensagem super positiva, e de novo ele recebeu críticas. O cara está celebrando uma visão nova de ser. Amanhã não precisa mais da cadeira, ótimo, mas enquanto ele precisou, ele viu que era um instrumento que ajuda, assim como ajuda milhares de pessoas ao redor do mundo. As pessoas precisam tirar esse estigma, a cadeira de rodas é realmente parte do meu corpo.

Muitos acidentes poderiam ser evitados se essa naturalização da deficiência fosse mais cotidiano, não?
Sim, não só com cadeira de rodas, muletas, bengala, são instrumentos e tecnologias que estão aí para facilitar a vida das pessoas, mas são objetos tão hostilizados ao longo dos anos que todo mundo vê como uma derrota estar ali. Por isso eu celebro tanto quando se torna pública uma história de pessoa com deficiência, um cego, porque junto dela está levando uma série de novos valores para que a sociedade interprete isso também de uma maneira diferente. De fato os idosos resistem demais à cadeira que vai dar conforto, segurança, tranquilidade. Mais uma vez na cadeira de rodas vai parar de andar. A cadeira de rodas pode ser só um instrumento para facilitar a vida das pessoas. De novo, quanto mais a gente tentar olhar com naturalidade, mais a sociedade ganha.

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